elsonQuando o homem pisou na lua, pela primeira vez, no domingo de 20 de julho de 1969, boa parte dos lares brasileiros, que dispunham de televisor, ficou uma noite inteira acordada pela transmissão, ao vivo, que marcou a história de muita gente. A casa de meus pais, em Divinópolis, foi uma delas. Logo após, com os olhos cheios de areia, pela ausência do sono reparador, dirigi-me à antiga estação rodoviária para tomar o ônibus para Belo Horizonte, onde eu, recém-formado, despontava minhas primeiras atividades profissionais de engenharia, e, no caminho, encontrei-me com um velho amigo da família que me perguntou, rapidamente, se eu havia assistido ao espetáculo. Homem sério, bem quisto por todos da comunidade, era pessoa simples, sem muitos estudos, e antes que eu respondesse, foi logo dizendo, o homem pode até pousar na lua, mas entrar lá não entra não! Pela pressa que eu tinha, a conversa se encerrou logo, mas segui pensando que ali estava um exemplo do paradoxo entre a evolução tecnológica e a fragilidade da educação.

 

A retórica, bastante conhecida, de que sem uma educação eficiente não se consegue desenvolver uma nação, tem sido sempre propalada com frequência, mas, a prática, principalmente no Brasil, anda bem longe desse caminho. A boa educação, sobretudo, é aquela que ensina o estudante a pensar. Um governo corajoso seria aquele que, abandonando o populismo barato, dedicasse prioridade absoluta à remodelação da educação brasileira, e entre muitas medidas a serem adotadas, viabilizasse totalmente gratuitos, todos os serviços correlatos, desde a tenra infância até os níveis de mestrados, doutorados, pós-doutorados, especializações e afins, para que o Brasil encontrasse, verdadeiramente, o seu desenvolvimento. Nação que se preze não pode abrir mão da certeza de que todos os seus cidadãos tenham pleno acesso à educação, com um forte componente nos aspectos relativos ao exercício da cidadania. O efeito multiplicador será sensível na qualidade da comunicação entre as pessoas, na saúde preventiva, na segurança, no desempenho empresarial, nos transportes coletivos, no trânsito, no respeito ao meio ambiente, nas finanças, na política, nos serviços públicos e em todos os setores que refletirão, seguramente, em um melhor posicionamento da sociedade.

Conta-se que, nos Estados Unidos, no final do século dezenove, um empresário do ramo ferroviário, Leland Stanford, via com angústia, que os jovens de sua cidade, Palo Alto, na Califórnia, tinham que se mudar para outras cidades para fazer a universidade, e, portanto, a grande matéria prima de seu desenvolvimento era exportada para outros lugares. Até que um dia, desafiado pela negativa da Universidade de Harvard, em implantar lá um campus avançado, resolveu criar a sua própria universidade. Assim nasceu a Universidade de Stanford, que se especializou em empreendedorismo, hoje reconhecidamente uma das melhores do mundo. Graças a isto, pelo efeito multiplicador consequente, a Califórnia se tornou uma das regiões mais avançadas dos Estados Unidos e responsável por uma boa parte de seu produto interno bruto. Lá se situam empresas como a HP, o Google, a Yahoo, a Apple, a Facebook, a Nike, a Symantec, a Microsoft, a Adobe, a Oracle, a Intel e muitas outras.

Fica cada vez mais evidente que quanto mais conhecimento, mais desenvolvimento. Dentro deste enfoque, a expansão universitária foi, nos últimos tempos, uma conquista das mais importantes para Divinópolis.

Na década de sessenta, os primeiros passos foram dados nessa direção e assim, alguns cursos superiores foram implantados em nossa cidade. Os professores José Dias Lara, Carlos Altivo, Nelson de Andrade Horta, João Meira, Altamiro Santos, Jadir Vilela de Sousa, Fernando Teixeira e Maria Ângela Sena, entre outros, merecem os melhores aplausos de nossa história, pelo pioneirismo e pelo dinamismo com que atuaram para concretização dessa inestimável riqueza. Posteriormente, a criação da cidade universitária foi uma medida estratégica do então prefeito Antônio Martins, que vislumbrou a consolidação de nosso parque universitário como o grande caminho para nosso desenvolvimento econômico e social. No começo dos anos noventa, oito cursos de graduação eram oferecidos aos três mil e duzentos estudantes que passavam pelos bancos do Instituto de Ensino e Pesquisa-INESP, da Faculdade de Direito do Oeste de Minas-FADOM, e da Faculdade de Ciências Econômicas-FACED, mas dado ao vertiginoso crescimento populacional que ostentava nossa cidade, centenas de jovens tinham que se deslocar, anualmente, para Belo Horizonte e outros centros, em busca dos cursos que aqui não existiam, ou que tinham gratuidade em instituições públicas. Além dos impactos financeiros e familiares, a cidade era uma forte exportadora de inteligências, com consideráveis reflexos no seu perfil e no seu desenvolvimento sustentável, pois a grande maioria desses jovens não retornava depois de formados. Em 1988, quando situações como esta preocupavam as lideranças da cidade, em memorável reunião no Rotary Divinópolis Leste, decidiu-se pela criação do Conselho de Desenvolvimento de Divinópolis, que passou a congregar diversas entidades voltadas por um objetivo comum que era o de planejar e promover ações para que o município encontrasse os melhores caminhos para o seu desenvolvimento. O professor Mercemiro Oliveira Silva, que fazia parte do conselho, relata, com riqueza de detalhes, a vida e os trabalhos dessa entidade, em seu livro “Do Conselho de Desenvolvimento de Divinópolis ao Conselho Municipal de Desenvolvimento”, publicado em 1998, na gestão do presidente Antônio Carlos Pereira de Oliveira. No mandato do presidente Olímpio Fagundes da Silva, foi criado, então, um grupo de trabalho, que tive a responsabilidade de coordenar, com a participação de professores e diversas pessoas interessadas pelo tema, para estudar a expansão universitária do município.

Os primeiros estudos caminharam para a criação de uma universidade estadual nos moldes da Universidade Estadual de Montes Claros, mas após exaustivas gestões nessa direção, atribulações políticas da época inviabilizaram a proposta. Novo direcionamento foi feito, então, para que o antigo Instituto de Ensino e Pesquisa, o INESP, fosse incorporado pela Universidade do Estado De Minas Gerais, criada pela Constituição Mineira de 1988, que ainda se encontrava em fase de formatação. A Fundação Educacional de Divinópolis, a FUNEDI, responsável pelo instituto, fez a opção pela absorção, através de um diligente trabalho de seus diretores José Ildeu Corgozinho, Dilza Eugênia Nery e de seu corpo de professores. O grupo de trabalho, então, com a colaboração do professor Celson Diniz, da UFMG, preparou uma minuciosa proposta, editada em 1991, que foi solenemente entregue ao professor Aluízio Pimenta, reitor da nova universidade, em memorável reunião em que participaram o então prefeito Galileu Machado e todas as lideranças políticas da cidade, num clima suprapartidário motivado pela nobre causa. Essa proposta foi encaminhada pelo reitor à Fundação João Pinheiro que ficou encarregada de preparar o projeto final da universidade estadual, levando em conta as sugestões de Divinópolis. Novos cursos, novas dinâmicas e muitas ações foram realizados depois para fortalecimento da instituição divinopolitana, mas sua incorporação definitiva somente aconteceu vinte e três anos depois, quando era diretor do campus o professor Gilson Soares, no Governo de Antônio Anastasia que se comprometeu, pela causa, desde o início de seu governo.

O Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais, campus Divinópolis, nasceu, também, desse sonho, após a criação de um importante braço operacional do Conselho de Desenvolvimento, a agência de desenvolvimento, cujo primeiro diretor, José Elísio Batista, começou as primeiras tratativas. Em consonância com a direção do CEFET, em Belo Horizonte, e com o apoio da Prefeitura local, no governo do prefeito Aristides Salgado, que doou o terreno para construção da sede, na cidade universitária, estudos foram realizados, e após dezenas de reuniões com a participação de representantes do Ministério da Educação, ficou decidida a sua criação com a presença em Divinópolis, do então ministro Murilo Hingel, em 1994. Inúmeras dificuldades tiveram que ser vencidas depois, mas a valiosa participação de novas lideranças e novos atores permitiu que o projeto fosse consolidado. Encontra-se em fase de conclusão, na instituição, um memorial com todas as informações e registros históricos e personagens envolvidos na implantação do campus Divinópolis.

A UNIFENAS também foi fruto de gestões do Conselho de Desenvolvimento através de inúmeras reuniões e providências junto aos diretores daquela universidade em Alfenas, notadamente do professor José Velano, seu vice-reitor, que se entusiasmou e abraçou o projeto. Merece destaque o dinamismo dos professores divinopolitanos Jefferson Thompson Pimenta e Luís Fernando Cardoso, e do então presidente da Associação Comercial e Industrial de Divinópolis, Afonso Gonzaga, cujo apoio foi importante para viabilização do campus que iniciou suas atividades em 1998, porém em proporções menores do que havia sido planejado, devido á resistência de alguns setores da sociedade.

A Universidade Federal foi a última grande conquista, que começou com um telefonema que recebi, em 19 de outubro de 2006, de meu filho, Emerson Penha, jornalista, também entusiasta pelas causas ligadas ao desenvolvimento de nossa cidade, que, em trabalho pela SBT em Brasília, descobriu que o presidente Lula viria a Divinópolis no dia seguinte, em campanha por sua reeleição, e ponderou que seria uma ótima oportunidade para reivindicarmos a universidade federal para Divinópolis. Como rotariano, imaginei que a solicitação em nome da entidade, conceituada, no mundo inteiro, por suas atividades beneficentes e por sua credibilidade, poderia ser um forte elemento motivador para viabilizar essa possível conquista, cujos detalhes foram transmitidos ao presidente do Rotary Divinópolis Leste, professor José Gomes Pimenta, que prontamente redigiu uma carta que foi entregue ao prefeito Demétrius Arantes. Demétrius se entusiasmou pela causa, convenceu o presidente Lula e abraçou o projeto de corpo e alma, dedicando boa parte de seu expediente, de suas viagens e de sua habilidade para concretização do campus, inclusive com relação à aquisição do terreno e da construção de seu primeiro prédio. Por incrível que pareça, houve resistências para que a universidade não se instalasse, talvez pela previsão de implantação do curso de medicina, mas em 2008 ela foi inaugurada.

Recentemente, tivemos a notícia da instalação de um campus da UNA ampliando o leque da educação superior, de nossa cidade, que conta hoje com 57 cursos de graduação, e dezenas de outros de pós-graduação, com especial destaque para seis mestrados e três doutorados de indiscutível qualidade.

Podemos dizer, com segurança, que hoje Divinópolis faz parte do mapa do Brasil, com cerca de 16.000 universitários. Centenas de estudantes de diversas partes do país aportam em nossa cidade, anualmente, para aqui realizar seu sonho do curso superior. De exportador de inteligências, nosso município passou a ser importador. Como efeito colateral, ganhou a construção civil, o comércio e toda uma extensa gama de serviços.

As atividades de extensão já são vistas e percebidas com frequência, principalmente nas áreas da saúde, na engenharia e na economia, e são notáveis as relativas às pesquisas, principalmente na universidade federal e no CEFET.

A inovação e o empreendedorismo começam a aparecer, sinalizando um novo tempo para nossa cidade e região. Que venham os parques tecnológicos!

Elson Penha Silva.

Divinópolis, 26 de maio de 2017.